O papel das palavras

A minha primeira professora de Língua Portuguesa se chamava Neide. Dona Neide é como todos diziamos. Ótima professora. Talvez dali tenha surgido meu amor pela escrita, pela leitura, pelas palavras, pelas rimas. Eu me lembro de poemas. Me lembro de escrever e ler com encantamento. Me lembro que ela gostava da minha escrita. Eu me lembro mais do encantamento que da própria Dona Neide.

Mas eu quero escrever sobre ela, mais especificamente sobre o que ficou dela em mim. Acho que o seu encantamento era maior que tudo e nele fui envolvida. Enlaçada. Ela parecia estar no lugar certo na vida daquelas crianças. Parecia uma mulher inteira, completa, humana, de corpo e alma presentes na sala de aula.

Eu escrevi para os meus irmãos perguntando se sabiam dela. Minha irmã mais nova, que por sinal também se encantou com as palavras, respondeu imediatamente: “Você fala em Dona Neide e eu me lembro de uma frase que ela repetiu milhares de vezes Ler recicla as suas ideias”. Imagina uma professora de Ensino Fundamental que te deixa essa frase na memória?

Tudo isso começou porque eu decidi criar uma playlist de músicas que me empoderam como mulher. Recorrendo a minha memória pensei em “Maria, Maria”, do Milton Nascimento. Sempre que escuto essa música, penso também na Dona Neide.

 

Eu me lembro dela, miúda e negra cantando muito emocionada. Eu me lembro de estar atenta àquelas lágrimas, encantada pela beleza de quem se permite sentir a vida com intensidade. Encantada pelas suas roupas coloridas, seu turbante, seu cabelo crespo e livre.

A música me conecta com a minha infância branca, com o privilégio da inocência de não entender muito bem o que era uma gente que “não vive, apenas aguenta”, de não entender quais eram as marcas que se traz no corpo e por que “é preciso ter (TANTA) força”.

Hoje, em tempos de protestos de nazistas, de Claudia, Amarildo e Rafael Braga (pra citar apenas alguns), aquelas lágrimas da Dona Neide doem em mim e eu gostaria que elas doessem em vocês também.

Sentir vergonha da minha branquitude não muda nada. Ficar calada espantada e triste não muda nada. Fechar meus olhos pra essa realidade não muda nada. Ativismo de internet não muda nada. 

Todos os dias, infelizmente, estamos diante de inúmeras oportunidades que nos imploram para agir contra injustiças. Estamos diante do nosso próprio racismo e machismo; estamos  diante da amiga que se sente um lixo com o seu companheiro, e dizemos que é só impressão dela, que ela precisa entendê-lo.

Estamos diante da criança que nos conta rindo de menino da sua classe que tem seios, e escolhemos rir com ela. Estamos diante do colega de trabalho que é gay e houve insultos homofóbicos, e compramos a justificativa de que é só uma brincadeira, um “modo de falar”. Estamos diante de quem diz que cabelo não liso é “ruim”. Estamos diante da vizinha que apanha do marido e escolhemos ignorar os seus gritos.

Escolhemos ignorar a dor alheia.

Eu, pequena, não entendi as lágrimas da Dona Neide, mas elas ficaram em mim. Eu não preciso entender a sua dor pra que ela exista. Ela existe antes de mim.  Ela existe independente de mim e eu posso escolher agir ou ignorar.

Ativismo de internet não muda nada, mas quem sabe pode nos inspirar. Então, eu vou deixar aqui um vídeo que me fez pensar sobre como podemos agir:

 

 

 

 

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