Entre.ver Amar.a

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Em janeiro de 2015, eu chamei a Amara para tomar um café na Unicamp, aproveitando a minha visita ao Brasil. Eu precisava conhecê-la. Acompanhei sua transição pelas redes sociais, fiquei fascinada pela sua história de uma maneira que vai além da minha compreensão. Ela topou. Conversamos como velhas amigas. Nunca tivemos uma convivência muito cotidiana. Fizemos matérias juntas e conversávamos entre uma aula e outra ao longo dos oito anos em que convivemos na universidade. Em setembro do mesmo ano, de volta ao Brasil, perguntei se podia fotografá-la. Minha vida sempre foi rodeada de mulheres fortes e lutadoras. Vi na Amara essa familiaridade que eu tanto admiro. Como fotógrafa, poder tentar registrar essa força que a Amara tem foi desafiador. E, além disso, é maravilhoso poder dividir com vocês o privilégio que é conhecê-la e poder conversar com vocês sobre transfobia. Mas quem sou eu, mulher cis, para falar sobre isso, não é mesmo? A Amara transborda, não cabe apenas em fotos. Então, surgiu entre nós duas a ideia dessa entrevista.

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Lígia: Amara, primeiramente obrigada por ter se deixado fotografar por mim. Obrigada pela confiança. Obrigada por se sujeitar ao meu olhar. Foi uma honra. Eu agradeço pela sua entrega e por ter entrado nisso de cabeça comigo.
Amara: Uma situação curiosa esse encontro. Você chegou toda tímida, falando que não tinha experiência em fotografar pessoas, mas eu já conhecia suas experimentações com a câmera e estava bem curiosa a respeito do que sairia dessa interação, interação que só a Amara conseguiria criar (o falecido que fui, em oito anos de convivência na Unicamp, não conseguiu se aproximar tanto de ti quanto eu agora consigo, nesse meu um ano e meio de transição).IMG_9597-3

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Lígia: É verdade! Eu acompanhei de longe a lamentável situação dos escritos transfóbicos nos banheiros da Unicamp e, para mim, as fotos são uma resposta a esse episódio. Eu li uma entrevista ótima sua no Lado Bi, e eu gostaria de saber como você enxerga esses escritos e como outros escritos posteriores afetaram o ambiente universitário. Você acredita que a transfobia ficou mais evidente? Você acha esses escritos podem ter gerado algo positivo?
Amara: É algo paradoxal a minha relação com essas pixações. Eu, a Bia Pagliarini e a Jéssica Milaré as descobrimos em meio a um momento muito delicado — um homem trans amigo nosso, aluno também da Unicamp, estava muito fragilizado por conta da transfobia que vinha sofrendo dentro da própria universidade –, então a agressão que sentimos com essas pixações foi agravada por esse contexto. Mas, por outro lado, a exposição pública dessas pixações fez com que nós nos empoderássemos e percebêssemos que já havia uma ampla parte da sociedade disposta a nos apoiar e lutar contra essa forma de discriminação: uma semana após a denúncia, chamamos um ato contra a transfobia em que compareceram mais de 150 pessoas na Unicamp para condenar as pixações. O ato teve cobertura do Correio Popular, maior jornal da cidade, e no dia seguinte esse mesmo jornal estampava na capa “Transfobia na Unicamp”. Percebe o peso disso? Colocamos a palavra “transfobia” no vocabulário do cidadão comum! O problema foi o custo de tudo isso: ao responsabilizarmos o “feminismo radical” pelas pixações, acabamos dando um golpe involuntário no próprio feminismo, pois é ainda restrito o número de pessoas que sabe que “feminismo radical” não é feminismo levado às últimas consequências, mas sim uma vertente feminista muito poderosa, focada no destino que a sociedade impõe a toda pessoa criada para ser mulher, mas que costuma fazer do ódio contra travestis e transexuais uma de suas pautas prioritárias.

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Lígia: Atualmente, como você percebe o embate entre a presença trans e a presença da transfobia na Universidade?
Amara: A partir do momento que nos fazemos presentes nos mais variados espaços vamos obrigando a sociedade a repensar suas estruturas. Vestiários terão, p.ex., que ter divisórias entre os chuveiros, pois, à medida que vamos impondo nossa existência à sociedade, cada vez mais esses espaços estarão povoados por multiplicidade de genitais: homens com vagina e homens com pênis dividirão o mesmo vestiário masculino, mulheres com vagina e mulheres com pênis o feminino. Ocupa-se o espaço, torna-se necessário transformá-lo. Antigamente não havia quase pessoa trans dando as caras na Unicamp e, quando havia, não era militante… quatro anos atrás surge a primeira, aí ano passado já éramos por volta de seis e hoje somos treze, um aumento considerável, mas ainda sujeira estatística perto da massa de 30.000 estudantes da universidade. Estavam acostumados a só se deparar conosco nas ruas escuras, de noite, nos prostituindo por vinte reais, mas agora um grupinho crescente vem reivindicando a universidade como um lugar também travesti, também trans, e junto vamos exigindo que esse espaço se transforme para aprender a nos acolher com respeito e dignidade.

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Ligia: Como eu já falei essas fotos são uma forma de dizer quem é a Amara, alguém por quem eu tenho muita admiração e carinho. As fotos dizem que você rompe, entre tantas barreiras, a barreira entre o que é dito “culto” (a academia) e o dito “popular” (a prostituição). Quais as barreiras que você mais se interessa por trans.por? Eu percebo que esses embates são cruciais na sua vida agora. Talvez nos próximos ensaios, outras questões se mostrem importantes, mas para mim esse ensaio é sobre a ocupação trans de espaços públicos.
Amara: Retardei minha transição ao máximo por medo de um dia ter que me prostituir e, com isso, sofrer todo tipo de exclusão social. Vinte nove anos aguardando o momento certo, minha autonomia financeira, doutorado, militância, apoio de pessoas amigas, condições necessárias para que eu pudesse negociar com a comunidade a minha aceitação. Só que, uma vez empoderada, uma vez me sentindo dona do meu destino (“Destino Amargo” é o significado de “Amara Moira”, nome que escolhi para mim por pensar que amargor não é necessariamente ruim, mas tão-somente um gosto que não sabemos apreciar com facilidade), não quis mais me furtar ao destino de quase toda travesti e decidi que era hora de enfrentar meus fantasmas, meus medos, pois pode ser que em algum momento eu precise recorrer à prostituição como a minha principal fonte de sustento. E, se assim for, eu quero estar preparada para desempenhar a função da melhor maneira possível, sem ser jogada nessa realidade da noite para o dia, no desespero. Uma coisa interessante também foi que a vivência da rua libertou a minha escrita, que a pós-graduação tinha aprisionado: voltei a sentir, na prostituição, aquela necessidade de escrever que me consumia nos tempos da graduação em Letras e, junto com isso, percebi que escrever poderia ser uma importante ferramenta da militância de travestis e profissionais do sexo.

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Ligia: Para terminar você poderia me falar um pouco sobre ser fotografada. O que esse ensaio significou para você? Quais significados essas fotos te trazem? Eu já fui fotografada e sei que nos ver pelos olhos e lentes do outro modifica um pouco quem nós somos, permite que nos observemos de outra forma. Como foi ver as fotos?
Amara: Fiquei surpresa com alguns detalhes, o predomínio do preto e branco, por exemplo. O que me pareceu ter um pouco a ver com essa multiplicidade de sentidos que meu nome evoca: ao mesmo tempo um nome sonoro, alegre, que elogiam a todo momento (“se é para escolher, que seja um bonito”, eu costumo dizer), mas também o “destino amargo” e uma sonoridade que lembra o nome do falecido, esse fantasma. Como contrapartida a essa onipresença do branco e preto, você buscou uma Amara sempre dona de si, sorriso engatilhado, atitude que denotasse confiança. Gostei desse contraste, me pareceu tão eu, tão caos! E gostei ainda mais do fato de esse ensaio ter me permitido conhecer, não apenas a mim, mas também a Unicamp com outros olhos… fiz parte da escolha dos cenários, das poses, das roupas, pensando junto com você o que seriam essas imagens. Não à toa escolhi os banheiros como cenário preferencial, pensando justamente no quanto esse espaço é importante na vida de pessoas trans. Tentam nos tirar dos banheiros femininos, pixam “transfobagem” em letras garrafais nas paredes dos boxes, dizem que vão cortar nossas picas, mas nós cada vez mais vamos nos sentindo à vontade dentro deles. Meus saltões, batons, meu vestidinho curto, os cachos, meu divã, euzinha fazendo hora. É festa, virou festa, e todas vocês estão convidadas!

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